Um ano vai; outro, vem. Alguns voluntários saem; uns, ficam; outros, entram no time do CREA+. É sempre assim. Mas hoje a palavra será passada especificamente para  alguém que está no CREA há mais de 5 anos. Formada em Direito, a Ingrid Rodrigues da Silva, 23, conheceu o projeto em 2011, quando o CREA iniciou sua atuação na escola pública Daniel Paulo Verano, no bairro do Rio Pequeno, inclusive a mesma escola que ela foi  aluna. Em um certo dia, o CREA se apresentou em um evento da escola de Ingrid. Curiosa desde o início, ela perguntou se poderia acompanhar a rotina do projeto durante os sábados em que ela não tinha vestibular. E assim foi. Desde a sua entrada no CREA, Ingrid já foi professora de matemática do projeto (quando ele ainda tinha esta abordagem), professora de projetos para alunos entre 4-10 anos, gestora de escola e, atualmente, ela é  membro do relacionamento com a escola. Mas vamos ao que interessa: a Ingrid nos concedeu uma entrevista riquíssima em conteúdo a respeito de sua visão sobre algo que tem tudo a ver com CREA: educação. Acompanhem conosco:

 

Qual é a sua visão sobre o atual sistema de ensino?

Entendo que a palavra que melhor defina o atual sistema de ensino brasileiro é “sobrecarregado. O corpo docente, de um lado, precisa arcar com grandes cargas horárias, precisando priorizar muitas vezes, infelizmente, quantidade a qualidade, em virtude de apostilas , planos de estudos e direções ditadas por órgãos superiores. O mesmo se fala da gestão das escolas.

Remuneração não compatível com a função exercida, de tamanha importância à sociedade, classes cheias e sem a infra-estrutura necessária, e exposição a diferentes tipos de violência, por exemplo, refletem no engajamento e desânimo de alguns docentes. Por outro lado, alunos que não são incentivados a serem protagonistas de suas próprias histórias, ao terem de aceitar conhecimentos impostos de cima para baixo, em uma estrutura horizontal , em que se visa muito mais imposição de fórmulas, teorias e ciências a privilegiar vivências humanas. trocas de experiências entre os alunos, e o desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais  acarreta também em alunos sobrecarregados. É necessário um equilíbrio entre as situações, um compartilhamento mais de informações entre professor e aluno, entre professores, entre alunos, enfim, uma reformulação, para que a escola se torne o que ela deveria ser: um lugar de autoconhecimento e compartilhamento de vivências.

 

Por que você acha que desenvolver habilidades sócio-emocionais é importante para se melhorar a educação?

O desenvolvimento de habilidades sócio-emocionais, como o respeito, honestidade e trabalho em equipe, não equivalem a ciências exatas, em que há um certo e um errado, e que uma teoria ou uma fórmula as explicam, por isso que são tão difíceis de serem transmitidas.

No entanto, eu entendo que que é( ou deveria ser, pelo menos) papel da escola tentar, ao menos incluir tais habilidades em seu currículo escolar, pois, do contrário, corremos o risco de terem alunos nota 10 sem saber lidar com questões práticas do dia-a-dia, alunos sem ter a empatia com o próximo e, com isso, não compreenderem a própria realidade em que estão inseridos, sem uma visão crítica do mundo, apenas reproduzindo o que ouvem ou escutam. Aqui, mais uma vez, entra-se na questão mencionada acima: como podemos exigir que os docentes , sem reconhecimento, sem infraestrutura, “sobrecarregados”, lidem com mais esta questão dentro das salas de aula? Por isso que a reformulação do atual sistema de ensino se faz necessária.

 

Como podemos incentivar os alunos a serem protagonistas de suas próprias histórias?

Podemos incentivar os alunos a serem protagonistas de suas próprias histórias ao darmos o espaço que eles precisam para libertar-se; mostrar que o conhecimento não precisa vir de cima para baixo, da escola para os alunos, e que eles também têm muito a compartilhar entre si e com os mais velhos. Podemos auxiliá-los a serem protagonistas quando damos a eles a oportunidade de dizerem o que entendem como certo ou errado de uma situação, de manifestarem sua opinião, porque na maioria das vezes eles não têm opinião própria, porque ninguém nunca deu a eles essa oportunidade. Enfim, podemos fazê-los ser protagonista quando demonstramos que eles são importantes para nós e que estamos dispostos a ouvi-los

 

Texto por: Jakeline Borba, voluntária do CREA+

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